Rômulo Pacheco

JARTAUDVANGOGH

A Crisantema beleza do dia em que o diabo desce do céu e se prostitui em flor, serve de metáfora para os momentos em que passo com André Scucato e Cristina Pinheiro; ou seria Anais Cris e André Nin? A segunda opção seria não só a mais inventiva como também mais próxima de uma real definição desses dois criadores que casaram artisticamente numa simbiose única, singular.

E assim segue nossos encontros: ricos de descobertas capitaneadas, quase sempre, pela inquietação e vivacidade da doce, frágil e pérfida Anais Cris que encontra em André Nin Hugo um grande e generoso parceiro realizador de sonhos cinematográficos e extra-fílmicos. Vida e arte se encontram nesse mergulho avassalador em Antonin Van Artaud Gogh, que outra coisa não faziam a não ser unificar o homem e o artista que neles havia.

Dormimos com Artaud e acordamos com Van Gogh. Sempre tocados pelas luzes da pintura deste e pela estrela negra e ambígua daquele. Artaud é um poço sem fundo onde, escafandrista agoniado, mergulho guiado pelo  homem-artista André Scucato que me aconselha sussurrante, como é de sua característica,a procurar o Artaud belo, no que tem a total aprovação de Anais Cris Nalpas, que conduz meu corpo sem órgãos com delicadeza e sensibilidade, por entre os meandros mais escuros da alma múltipla do poeta, ator, roteirista, dramaturgo, diretor de teatro, rio de mil braços, mar de mil caminhos; cristão anti-cristo, surrealista não surrealista; viciado barca louca; barco ébrio de Rimbaud; Arthur rim BAUD, ART+BAUD= ARTAUD.

E  não seguimos sozinhos, somos levados por cada nota ou poema musical que o piano de João Gabriel, inspirado, não cansa de versar. Já soa lírico e há de soar surrealista. Já ouço musica e hei de ouvir cada vez mais poesia de seus dedos de músico-poeta. Artaud já o toca sem que ele o perceba. Que o envolva e o incendei! E que o fogo que o pintor holandês o aqueça nos dias-noite mais inspirados, como já aquecem o olhar poético que Scucato Van Gogh lança sobre o mundo transformando a fealdade em girassóis, Cristina Pinheiro em noites estreladas de sol.

E que a Cris seja cada vez mais June com os burocratas para que a tenhamos, flor sozinha cercada de beija-flores, cada vez mais Anais conosco. Que a seiva por ela vertida diante de Artaud nos venha como alento e sua alma apaixonada nos torne febris como o são os poetas marginais e românticos que desbravam caminhos sem volta.
Só precisamos da passagem de ida. Barbacena que nos abra as portas da loucura e Tiradentes que nos acolha em sua placenta de onde saíram as primeiras imagens do poema-filme/filme-poema, e onde fora descoberto Fernando Campos de Trigo Van Gogh, o pintor mineiro que já  veste a pele de Van Gogh, tamanha a semelhança física, e sem quiçá vestirá dele a alma. Que a fada verde o abençoe...o acompanhe...e dance sobre o seu juízo. Que nos percamos, eu e ele, de nós mesmos para encontrarmos Antonin Van Artaud Gogh.

E que venham a Cristina nua de Van Gogh, os loucos atores de Artaud, a banheira de eletro choques, a cruz e o absinto, as mulheres de Artaud, as amantes de Anais e que venham Ula Lá, a índia baiana afro-descendente alemã; Gioconda Freira June e seu Henry Miller; a Brigitte Bardot de Tiradentes e seus cães de rua; os arco-íris duplos como duplo é o teatro de Artaud. E o bar vazio com um piano dentro que toca Bill Evans até fechar. Em outras palavras, que venham as filmagens.

Je Sui Rômulo Pacheco, o ator-Artaud
06/05/05

 

Leia o artigo escrito por Marcelo Ikeda sobre o Cinema de Poesia.

Leia o texto de Luiz Rosemberg sobre o Cinema de Poesia

Leia o texto de Luiz Rosemberg sobre o primeiro média-metragem, Réquiem de um Poeta, realizado pelo Cinema de Poesia.

Texto de teatro enviado por Rosemberg