POR UM CINEMA DE PONTO E VÍRGULA

Nos 20 primeiros anos do cinema, paralelamente ao desenvolvimento da narrativa clássica, verificou a formação de importantes movimentos de vanguarda como o expressionismo alemão e a Avant Garde francesa. Nesta época, admitir o cinema como arte dependia da comprovação da sua capacidade de expressão e de dissociação do cotidiano do mundo. Grifth já ousava nos planos e em sua linguagem, aproximando a literatura do cinema.

Para André Bazin, que se contrapôs `a ênfase dada aos aspectos formais da imagem, o que interessava no cinema era o fato que sua técnica não apagasse a “poética da realidade”. Para o soviético Serguei Eisenstein a poética do filme estava na produção de antíteses no plano fílmico, utilizando imagens - ao primeiro momento de campos semânticos diferentes- na procura do choque pelo estranhamento, pela quebra da narrativa clássica do cinema convencional.

Pouco tempo depois, o poeta e pintor Jean Cocteau compõe Sangue de um poeta, a obra inaugural do Cinema de Poesia, em 1927. Dreyer com Paixão de Joana Darc com a brilhante apresentação de Falconetti e Antonin Artaud em 1929 consegue realizar uma poesia no cinema como poucos autores conseguiram até hoje. Artaud, poeta, ator, pintor e gênio da arte tinha consciência do que era cinema. Disse certa vez que a poesia não está além, mas aquém das imagens. Quando atinge o espírito, sua força desagregadora se despedaçou. Certamente existiu poesia em torno da objetiva, mas antes da filmagem pela objetiva, antes da inscrição sobre a e película.

Entreato, de Renner Clair é um cinema de poesia em estado puro, exibido como um entre-ato de um espetáculo de ballet. Raros artistas souberam de forma tão criativa a compor uma metáfora artística sobre o cinema com tal sutileza.

Um Cão Andaluz, de Luis Bunuel, marco do cinema surrealista, certificou novos espaços para experimentação de outras narrativas. Em conferência realizada por Bunuel Cinema: instrumento de Poesia, proferida na Universidade do México, em 1953, o cineasta enunciou as bases para a sua proposta e apontou seus objetivos com relação ao cinema; que fosse capaz de transcender o mundo tangível e desvelar aos espectadores um universo até então desconhecido, encoberto pela percepção cotidiana das coisas.

Outros poetas, como Andrei Tarkovski, esculpiram o tempo no cinema, vagando entre pintura, fotografia, poesia para compor a sua arte. Krzysztof Kieslowski com sua trilogia Bleu, Blanc e Rouge sinestesiou o som, personificou as cores e compôs uma obra repleta de meta-arte e poesia. Peter Greenaway, com seu cinema enciclopédico reconhece o cinema limitado uma única atuação e procura uma outra forma para a narrativa cinematográfica. Bem como Joel Pizzini e Júlio Bressane, cineastas contemporâneos que procuram rascunhar um cinema em outras narrativas, continuando a cine-poética de Glauber Rocha, o maior poeta que o cinema nacional já assistiu por estas telas. Neste país há de lembrar a prosa-poética de Humberto Mauro na origem do nosso cinema e da obra-poética-prima Limite, único filme de Mário Peixoto.

Na década de 60, no livro Empirismo Herege, o poeta e cineasta Italiano Píer Paolo Pasolini criou o termo Cinema de Poesia, caracterizando produções que buscavam uma ampliação no espaço de expressão do artista na narrativa cinematográfica. Assim como Pasolini, interessa-me o caráter poético do cinema como arte, explorando os limites da narrativa convencional, não se enquadrando ao programa de movimentos de vanguardas e do experimentalismo, em busca da exploração da forma pela forma.O que faço não há nada de novo. Apenas reúno todos os caquétipos das artes com mãos suadas de metáforas e sensações.

Concordo com o cineasta Peter Greenaway e afirmo categoricamente que ainda não vimos nenhum cinema, mas apenas 105 anos de texto ilustrado. O cinema não possui sua especificidade no formato (película x digital) que tanta discussão gera entre os profissionais da área e nem no que é projetado hoje em dias nas telas. No Brasil, a sétima arte ou retrata a obra literária do século passado e retrasado de modo audiovisual ou transcreve a encenação teatral para as salas escuras de exibição. Portanto é necessário um ponto e vírgula;

O Cinema puro é um erro, como afirmava Artaud. Assim como é um erro, em qualquer arte, racionalizá-la como meio objetivo de representção. Há dois mil anos que Aristóteles diz que a Arte é a representação mimética da realidade. Ponto e vígula.
Esta é uma pausa de reflexão que procura, na origem das artes, poetizá-la em todos os níveis propondo uma meta-arte, na busca de sub-textos, em todos os sentidos e direções, na desconstrução e construção de um diálogo poético com subjetivo de recompor a unidade primitiva da arte, que como unidade, multiplica-se na sinestesia de sentidos nesta força de afastar a compreensão humana da racionalização da lógica.

Assim como é necessário ao ator a construção do sub-texto, demolindo aliteradamente todas as formas e espaços da escrita, este assoalho percebido à primeira leitura que esconde nos alcapões do texto a representação cênica maldita, a música como nota tem que ser desconstruída. O que é um piano senão um palco, onde dançam coreograficamente duas mãos bailarinas a extrair de cada sílaba-tecla, a literatura poética da sonoridade? E esta sonoridade, (mais especificamente a sua personificação) que atua como personagem- diretor tanto do movimeto da imagem como sua forma e cor? A câmera como escrita caligrafáfica que se utiliza da dança corporal do fotógrafo que, sincronizada com o ritmo da dança desloca o corpo da fotografia para, seguindo além, extrair da imagem a textura e a figura nua de um quadro em movimento! Esta arte-plástica em transição que origina a tinta que, na montagem cinematográfica servirá novamente de texto e sub-textos, pronta para caminhar novamente entre a reescrita da interpretação cênica, dos sub-textos musicais, do movimento da dança na formação deste ballet sinestésicos de cores e formas?

Há ainda na realidade tantos cantos e espaços poéticos a mostra que basta recolhê-los com este olhar ingênuo de sabê-los lá, como pesa-nervos ou nenúfares esperando a colheita da poesia para sua exibição, seja em tela, seja em tinta, seja em dança, fotografia ou nas plásticas artes. Todo esse movimento de reconstrução compõe o sentido e a sensação do Cinema de Poesia, este intervalo, esta pausa, este entre-ato entre o que se acha ser Cinema e o que realmente o constitui.

Cinema de Poesia

   

 

Crítica do Abismo da Alma por Luiz Rosemberg Filho

Leia o artigo escrito por Marcelo Ikeda sobre o Cinema de Poesia.

Leia o texto de Luiz Rosemberg sobre o Cinema de Poesia

Leia o texto de Luiz Rosemberg sobre o primeiro média-metragem, Réquiem de um Poeta, realizado pelo Cinema de Poesia.


Texto de teatro enviado por Rosemberg