Poemas que chovem

A chuva que Chovia do céu

Sou apaixonado por dias tristes. Eles me são.
Os dias de sol possui a rotina do sol. Pontualmente burocrático. Não tira férias. Crê na utopia da justiça. As dias de chuva não.
São descompassadamente belas.
As folhas, no outono, cobrem a seca cor da terra, como se pinta o chão no outono para receber o caimento das folhas.
Os dias de chuva, eles me são, um dilúvio de poemas embarcados em curvas de folhas d´águas que do céu despedançam-se ao solo.
Não há como resistir
a música da chuva quanto toca o chão.
Nos dias que chovem as ruas de manhã vestem-se de noite e cores azuladas. Sobre o seu vestido de piche, tons fugidios das árvores deitam sua caligrafia de tinta. Ora adormecem, ora despertam,
Coreograficamente.
Quando chove, atamanham-se as poças de água onde embarcam metáforas em caravelas verdes, que ora adormecem, ora acordam, despertadas pelos ventos.
Quando acordo de mim nos dias de chuva, acapoto-me de pensamentos,
inquietantes inquilinos que não saem para trabalhar nos dias de chuva e fazem farra no prédio de minha razão.
Os dias de chuva me são
guarda-chuvas onde a natureza
liquida metáforas.

André Scucato 25/05/2005

Títeres   de chuva

Hoje passos invisíveis tocaram sonatas molhadas ao beijar languidamente o chão com suas gotas puras. O rasgar céu não-rubro cobriu de poeira cinza o dia, que   desperto, tateou lentamente com dedos-pálpebras o silêncio. Este semideus descendo, como um farfalhar de ausência de vento deslizou em lúdicas gotas a valsa-brisa a movimentar-se no asfalto.

Reparo. Apenas eu observo o indivisível movimento do silêncio a valsar com a brisa, no tom de águas-gotas silenciadas. Há uma tristeza bela nesta sonata surda, uma solidão, um estar sozinho acompanhado, contemplando calado esta dança nua.

Ouço com a intensidade tal que saboreio na rua o cheiro de molhada terra, o falso titeronear de fantoches urbanos a pular poças de água,   como fossem todos feitos de açúcar-colheradas dentro de um pote-avenida.

E ao perceber que a chuva intensifica,   os fantoches de carne que aqui transitam, recolhem-se para marquises, escondem-se em guarda-chuvas, retornam à casa. Permaneço, dissolvo-me neste fluxo-líquido, sem medo de ser caligrafia. Uma densidade flutua. Uns poucos passos. Nesta arte da chuva,   observo com tristeza o seu tom tão puro, o titereiro sorrindo a esconder os movimentos do absurdo.

André Scucato

   

Asas de dias cinzas sobre movimento de coloridas folhas sobre poças onde, no tempo invisível, dançam folhas bailarinas.

A dança natural de um movimento invisível

Chove. Um gota curiosamente desprende-se de um beijo natural e carregado, no despencar de uma “pétala-árvore”, farfaleia em um movimento de girândolas, de carrocéis ausentes, dançando silêncio invisível do movimento espiralado do vento, repousando a queda da brisa sobre natural lago que alisa a face branca do dia.

Nublado e cinza. Nesta segunda chuva um natural lago de pequenina dimensão onde repousam folhas, amarelas outonais, verdes vivas e matizes de um marrom-terra-molhada onde decanta a vida, cores de épocas, balanço de ninar, andar trôpego de um despertar ainda não desperto, caminhar apressado a carregar co-senos de uma melancolia precisa e afogada.

Neste pequeno mundo de dríades amanhece uma bela sinfonia do entardecer dos tempos. Passos de sonhos verdes despertam o poeta à beira de uma poça, onde dançam em cores, lentamente, uma companhia de bailarinas-folhas em um espetáculo doce, frágil e belo.

André Scucato

 

Eu poeta vivo no paradoxo do amor à arte

Existir poesia. Interpretar-se não como servir-se a face de sentir lágrima que não veste o cálice da alma, mas ser-se neste cristal translúcido o que   sorve este líquido, ora transparente ora rubro. Não seduzir-se pelo amor mais (sê-lo em estado bruto, condição possível na existência desta cela-mundo, o mudo sela a persistência do sensível, senão, hirsuto amado sem tê-lo.)

(Não é decisão retirar os olhos desta consciência na existente pressa posso olhar a sensação até a solidão.) ( Encontrar-me cinza e morto absorto nos dias de amar.) (Ergue-se vias de sentidos pela vigas de sentido, vigias -sido, telhas-vidros esculpidas perfeitas vias pelo não sido, ser-se.)

(Humano não mais a forma, retorno a fôrma jamais são e insano). (Escamotear sentidos paralelos às paredes subjetivas de vidros nas frases, as faces, escondidos na rima seres os elos vivo do amar). (Raro efeito, ou distorção que endireito trôpegos passos, compassos fossos o direito a alucinação ou efeito raro.)

Ver-se o movimento da pálpebra perdido no tempo do movimento de um gesto, sincero sentimento que tenho sentido na álgebra do esquecimento ter-me. Um quarto de século nestes grilhões de vida a existir poesia nas libertações destes restos sobrados de um. Não há mais parênteses nos abismos dos parênteses, mais há não. Arde o breu nestas frestas vivos   corpos a dor de amar-te até a arte do amor nos paradoxos sinto poeta, resta eu à arte.

                   André Scucato


Frases...

Um dia suicidarei para você uma lágrima de silêncio.

Crítica do Abismo da Alma por Luiz Rosemberg Filho

Leia o artigo escrito por Marcelo Ikeda sobre o Cinema de Poesia.

Leia o texto de Luiz Rosemberg sobre o Cinema de Poesia

Leia o texto de Luiz Rosemberg sobre o primeiro média-metragem, Réquiem de um Poeta, realizado pelo Cinema de Poesia.

Texto de teatro enviado por Rosemberg