" A inspiração é que é subconsciente, não a criação. Em toda criação dá-se um esforço de vontade."
"OS ABISMOS DE ARTAUD"
Decerto que viver nunca foi fácil. E hoje tirando a musica não-comercial vulgar e a criação plena, nada mais se sustenta como valor humano. E a vida que deveria ser um poema para todos, só expressa decepções, traições e fugas. É na vacuidade que vive toda a humanidade dividida entre o medo, a fome a loucura, a guerra e a morte. E se tal constatação satisfaz aos podres poderes das nações, como estancar tal movimento? Artaud salvou-se pelo saber e por isso mesmo foi condenado como Van Gogh, Maiakowski ou Wilhelm Reich. Ou seja, nunca se quis o saber e o prazer como referencia de nada.
Talvez aqui os papéis escritos, os livros e a dor. Ali o claro-escuro expressionista do cinema mudo. Trabalha-se genialmente o som-música de João Gabriel, como metáfora poética do horror. O medo torna-se a primeira agressão a ser exposta. Cria-se o desconforto diante das imagens. O personagem é preparado e arrastado como um velho objeto sem importância alguma. O ator doa seu corpo a uma representação da dor sentida pelo outro, e descobre nas diferenças a sua própria linguagem do sofrimento humano. Representando um delicado momento de Antonin Artaud, ressuscita-o como história da inquietação humana. E atrás da máscara do seu sofrimento deixa chegar o resto doido da maturidade. Ainda assim sai caminhando de Rodez para a luz de uma outra percepção de não ter pertencido nunca ao senso-comum. Artaud foi um desvio necessário da Poesia.
Quem pode julgar e condenar a lucidez de um pensamento inovador, revolucionário? Artaud não seria um novo PROMETEU, só que julgado por pequenos homens medíocres? E onde não há esperança, a saúde psíquica se dilui em angústias e medos. E é por onde passa Antonin Artaud no delicado ABISMO DA ALMA que em imagens fortes e trabalhadas diz muitas coisas ao mesmo tempo em treze minutos. É um desenho sofrido de Artaud, mas também em profundidade a sua resistência aos tantos e tantos eletrochoques. O seu exterior e interior violentado por mais de cinqüenta sessões de tortura médica. Era a medicina, mas era também o poder.
O espaço perde o seu vazio para dar lugar a uma espécie de imagem-alucinação. Artaud-imagem. As imagens de Artaud. Fugir como? Até mesmo o coração é dopado por um medicamento duvidoso. Filma-se a conspiração do horror. Foi ontem no Hospício de Rodez, e hoje ainda pior no Iraque. Ora, onde nos leva os acasos tristes da história?
As imagens substanciam o nosso olhar. Mas não são imagens comuns vendidas pela publiciddade ou pela TV - e sim olhares metafísicos. Olhares que tentam expressar os horrores provocados pelos eletrochoques filmados como uma passagem pelo inferno. A não-paisagem era o horror de Artaud, muito bem usada e iluminada com o preto e branco se misturando na busca de uma outra cor que não chega com a dor. É um trabalho audacioso nesse nosso tempo sufocado pelo lado comum, competitivo e medíocre da vida moderna. Cristina Pinheiro e André Scucato ousam viver com o Cinema de Poesia, a liberdade que não se vê mais no país. Também não é uma superficial ilustração visual dos delírios de Artaud, e sim um trabalho delicado para que a imagem seja o próprio delírio.
Ou seja, volta-se a pensar a imagem como um trabalho sério e profundo a ser estudado. A imagem-arte. A imagem-Poesia. A imagem dupla do real e da criação que vai muito além da visão imediata de um sub-produto "humano" na TV. Cristina e André investem num Artaud próximo de todos nós. Um Artaud ligado aos nossos silêncios e medos. Eis por que os dois enfermeiros podem ser torturadores, burocratas, comunicadores ou mesmo políticos. Pois todos não expressam um profundo horror tanto pela criação, como pelo ser humano?
No entanto é preciso ver e sentir mais longe. Pouco importa que a percepção do outro não seja ainda uma ilustração do nosso pequeno saber. Artaud foi um gigante com seu Teatro da Crueldade, suas peças, poemas e textos. Mas Cristina e André optaram por usarem a loucura para pensarmos de algum modo esse nosso tempo. Por que não Rodez e Bush no Oriente Médio? É preciso aproximá-los sem medo. E ainda assim a construção poética do "ABISMO DA ALMA" vai mais longe. Artaud volta aos livros, as palavras e por fim consegue sair para a vida. E vive até hoje na memória dos que resistem as televisões com suas novelinhas e novelões.
Talvez o "ABISMO DA ALMA" seja o mais ousado e criativo curta-experimental-poético dos últimos anos. Sem espetáculo, sem gritos, sem lagrimas...Artaud resiste a doença do mundo. Sua compreensão do processo criativo o fez resistir. Enfim, uma terna idéia de ser e resistir além dos discursos políticos e partidários. Poesia? Sim. Mas uma poesia diferente do nosso cineminha televisivo comum e medíocre. Cristina e André enchem-no de satisfação ao nos possibilitar sair com Artaud do hospício de Rodez. O hospício em que foi transformado o nosso tempo. Será que teremos para nós uma saída humana e criativa?
Luiz Rosemberg Filho/Rô 2006
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